Supersalários no TJMG chegam a R$ 767 mil mesmo após limites do STF

Mesmo com as novas restrições do Supremo para os chamados penduricalhos, 98 pessoas receberam valores acima de R$ 78,8 mil em junho. Tribunal afirma que os pagamentos seguem a legislação.
Fachada do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que registrou pagamentos acima do teto constitucional em junho de 2026.
Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) afirma que pagamentos acima do teto constitucional decorrem de verbas indenizatórias e retroativas previstas na legislação.(Imagem:Divulgação / TJMG).

Mesmo após o Supremo Tribunal Federal (STF) estabelecer novas regras para limitar os chamados penduricalhos, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) registrou pagamentos líquidos acima de R$ 78.822,53 para 98 pessoas em junho de 2026. Entre os beneficiados estão 15 magistrados, um pensionista de juiz e 82 servidores administrativos.

O maior pagamento identificado foi de R$ 767.736,82 líquidos, destinado a um servidor que ocupa o cargo de Oficial de Apoio Judicial. Segundo o TJMG, ele não está submetido às novas regras do STF, que atualmente alcançam magistrados, procuradores e membros do Ministério Público, e não os demais servidores do Judiciário.

Logo depois aparecem dois Oficiais Judiciários que receberam R$ 583,8 mil e R$ 531 mil líquidos, embora seus salários-base sejam de aproximadamente R$ 19,2 mil. Ao todo, 14 servidores receberam mais de R$ 300 mil apenas no mês de junho.

Mais do que chamar atenção pelos valores, o caso evidencia um ponto importante: a decisão do STF não acabou com todos os pagamentos acima do teto constitucional. Em diversas situações, a legislação permite que verbas indenizatórias e direitos acumulados sejam pagos fora desse limite, o que explica por que remunerações elevadas ainda aparecem nas folhas salariais mesmo após as novas regras.

Por que os pagamentos continuam acima do teto

Segundo o TJMG, os valores superiores ao teto decorrem principalmente de verbas indenizatórias e pagamentos retroativos previstos em lei, como indenização de férias, férias-prêmio, plantões judiciais, substituições, gratificação natalina e outros direitos acumulados ao longo da carreira.

O tribunal afirma que todos os pagamentos seguem a legislação vigente e que, no caso dos servidores, essas parcelas podem ficar fora do teto constitucional justamente por sua natureza indenizatória ou por corresponderem a valores devidos em meses anteriores.

Entre os magistrados, os rendimentos líquidos variaram entre R$ 83 mil e R$ 148,3 mil em junho. Também consta um pensionista de magistrado que recebeu R$ 122 mil líquidos.

Na prática, o teto constitucional não funciona como um limite absoluto para todas as verbas. A própria decisão do STF preservou exceções para determinadas indenizações e criou critérios diferentes para cada tipo de pagamento extraordinário, motivo pelo qual ainda podem existir remunerações superiores ao teto em situações previstas na legislação.

O que mudou com as novas regras do STF

As novas diretrizes começaram a valer em maio e estabeleceram limites para diversas verbas indenizatórias pagas a magistrados, procuradores e promotores. O parâmetro considerado reúne o teto constitucional de R$ 46.366,19, acrescido dos percentuais autorizados pelo STF para determinadas verbas indenizatórias e para o adicional por tempo de serviço (ATS), chegando ao limite de R$ 78.822,53.

Entretanto, não é possível confirmar apenas pelos dados públicos se cada pagamento respeitou individualmente esses limites. Isso ocorre porque a folha de pagamento divulgada pelo TJMG reúne diferentes benefícios em um único lançamento, sem detalhar quanto foi pago por cada verba.

Essa forma de divulgação dificulta a fiscalização pela sociedade e impede verificar, apenas com as informações disponíveis no Portal da Transparência, se cada parcela observou os critérios definidos pelo Supremo.

TJMG não está entre os tribunais investigados

Nesta semana, o STF determinou que sete tribunais estaduais apresentem esclarecimentos sobre pagamentos acima dos limites definidos para os chamados penduricalhos, por decisão do ministro Alexandre de Moraes.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais não faz parte dessa relação.

Em nota, o TJMG reiterou que as novas diretrizes do Supremo, até o momento, se aplicam apenas à magistratura e afirmou que todos os pagamentos divulgados no Portal da Transparência estão em conformidade com a legislação vigente.

Para o cidadão, o caso também ajuda a entender um ponto frequentemente confundido no debate sobre os chamados supersalários. A decisão do STF reduziu parte das possibilidades de pagamentos acima do teto, mas não eliminou todas as exceções previstas em lei. Enquanto determinadas verbas continuarem classificadas como indenizatórias ou corresponderem a direitos acumulados, remunerações elevadas ainda poderão aparecer nos contracheques do Judiciário, desde que observadas as regras legais.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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