O tarifaço de Trump chega à eleição presidencial brasileira sem uma data definida para redução das cobranças. Brasil e Estados Unidos abriram uma nova etapa de negociação, enquanto parte dos produtos brasileiros permanece sujeita à sobretaxa acumulada de 37,5%.
Na quarta-feira (30), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o chanceler Mauro Vieira se reuniram com o representante comercial americano, Jamieson Greer, em Milwaukee. Os países acertaram a criação de um grupo de trabalho. Além disso, Washington deverá apresentar um documento delimitando os assuntos tarifários e não tarifários que pretende discutir.
Elias Rosa disse ao UOL ter entendido que a proposta americana poderá chegar em três ou quatro semanas. Provavelmente isso acontecerá no início de novembro. Greer também indicou que o período eleitoral brasileiro pode limitar a flexibilidade dos dois governos. A estimativa coloca a próxima etapa das conversas depois da votação, caso o prazo indicado pela equipe brasileira se confirme.
Tarifaço de Trump não cobra 37,5% de toda a pauta brasileira
Uma diferença importante ajuda a dimensionar o conflito comercial. Na base de 2024 utilizada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, equivalentes a US$ 6,6 bilhões, estavam simultaneamente sujeitas às duas sobretaxas. Essas sobretaxas, combinadas, chegam a 37,5%.
Máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções aparecem nessa parcela. Outros 4,7% da pauta estavam sujeitos apenas à cobrança adicional de 12,5%, enquanto 1,9% enfrentavam somente a tarifa extra de 25%.
No outro extremo, 52,7% da pauta não era alcançada por essas sobretaxas nem pelas tarifas setoriais da Seção 232. Porém, permanecia sujeita às tarifas ordinárias americanas. A exposição, portanto, muda conforme o produto. Por isso, a composição de uma eventual lista de exceções é relevante para cada setor exportador.
Brasil faturou mais em agosto mesmo embarcando menos
O comportamento recente das exportações acrescenta outro contraste. Em agosto de 2026, primeiro mês completo após a entrada das novas tarifas, o Brasil exportou US$ 3,190 bilhões aos Estados Unidos. Isso representou alta de 12,1% em relação a agosto de 2025. O volume físico embarcado, porém, caiu 3,1%.
Segundo dados do MDIC, a diferença foi sustentada principalmente pelo avanço de 8,6% nos preços médios das mercadorias exportadas. Assim, o faturamento aumentou mesmo com menos produtos embarcados naquele mês.
Quando o período é ampliado, a direção muda. De janeiro a agosto de 2026, as exportações brasileiras aos Estados Unidos totalizaram US$ 24,105 bilhões. Houve queda de 9,7% em valor e de 13,6% em volume frente ao mesmo intervalo de 2025. Os números descrevem o desempenho do comércio bilateral, mas não permitem atribuir toda a retração ao tarifaço de Trump.
O que observar na proposta que os EUA enviarão ao Brasil
O primeiro ponto será o alcance das discussões. O Brasil pretende inicialmente ampliar a lista de produtos excluídos das cobranças antes de buscar uma reversão mais abrangente das sobretaxas. Por isso, quais produtos e tarifas aparecerão no documento americano indicarão até onde essa negociação poderá avançar.
Outro ponto será a presença de temas não tarifários. Greer evitou antecipar quais assuntos serão formalmente incluídos e, questionado sobre temas como Pix e desmatamento, limitou-se a afirmar que os governos continuarão discutindo os diferentes pontos examinados até agora.
Para os setores sujeitos à cobrança máxima, há ainda uma distinção prática: o prazo estimado de três a quatro semanas refere-se à apresentação do documento americano, não à redução das tarifas. Até que uma eventual mudança seja formalizada, permanece sem data anunciada um alívio para os produtos brasileiros alcançados pelas sobretaxas.