A Rússia informou à Organização Mundial da Saúde (OMS) que não há casos registrados de peste em Irkutsk. No entanto, a resposta de Moscou não encerrou outra questão: como o episódio foi enquadrado nos canais formais do Regulamento Sanitário Internacional (RSI). Responder a um pedido de verificação da OMS e fazer uma notificação formal pelo regulamento são procedimentos distintos.
A OMS solicitou informações às autoridades russas em 3 de outubro, um dia depois da morte de uma funcionária do Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente. No briefing de 6 de outubro, o porta-voz Christian Lindmeier afirmou inicialmente que a organização ainda não havia recebido uma notificação formal do episódio pelos canais do RSI. Durante a própria coletiva, porém, chegou uma resposta das autoridades russas.
Peste na Rússia coloca regra de 24 horas sob atenção
O prazo ajuda a entender a diferença. Pelo artigo 10 do RSI, quando a OMS pede a um país que verifique informações sobre um evento, o Estado deve fornecer em até 24 horas uma resposta inicial ou confirmação de recebimento. Além disso, deve dar as informações de saúde pública disponíveis.
Isso não significa que qualquer suspeita deva ser notificada como emergência internacional nesse mesmo prazo. A notificação prevista no artigo 6 depende da avaliação do evento pelos critérios estabelecidos no regulamento. Com as informações públicas disponíveis, portanto, não é possível afirmar que a Rússia tenha violado o RSI.
Moscou informou à OMS que nenhum caso de peste havia sido registrado em Irkutsk. Nesta quarta-feira (7), a Rospotrebnadzor afirmou que mais de 90% dos contatos da funcionária concluíram o acompanhamento médico sem alterações relacionadas a doença infecciosa.
A negativa russa também não esclarece, sozinha, o que provocou a morte. No briefing de 6 de outubro, a OMS informou que nenhuma causa havia sido oficialmente confirmada e que testes laboratoriais estavam em andamento. A organização classificou naquele momento o risco como moderado a baixo em Irkutsk, baixo para a Rússia e muito baixo para sua região europeia.
Brasil mantém vigilância mesmo sem caso confirmado desde 2005
A comparação com o Brasil ajuda a dimensionar por que suspeita, confirmação e notificação não podem ser tratadas como sinônimos. Segundo o Ministério da Saúde, o último caso humano de peste confirmado no país ocorreu em 2005, em Pedra Branca, no Ceará. Mesmo assim, o Brasil ainda reconhece focos naturais da doença no Nordeste e em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Também determina que casos suspeitos sejam comunicados às autoridades sanitárias em até 24 horas.
Um relatório da OMS publicado em 25 de setembro acrescenta uma curiosidade recente: o Brasil reportou oito casos classificados como suspeitos entre 2019 e 2025 e nenhuma confirmação. A própria organização ressalva que essa série de vigilância epidemiológica é distinta das notificações realizadas pelos canais do RSI. Ou seja, uma suspeita registrada não equivale automaticamente a um caso confirmado.
Para o leitor brasileiro, não há nas informações disponíveis evidência de que o episódio de Irkutsk represente ameaça sanitária ao Brasil. A utilidade da comparação é outra: mostrar por que a peste na Rússia ainda exige respostas precisas sobre a causa da morte, a situação dos contatos e o enquadramento formal do episódio perante a OMS. Até que essas informações sejam esclarecidas, não há base pública para tratar nem um surto nem uma violação do regulamento internacional como fatos.