Tribunal do crime do PCC virou árbitro de disputa por mansão de R$ 2 milhões, diz MP

Uma disputa por uma casa de R$ 2 milhões na Riviera de São Lourenço levou o Ministério Público de São Paulo a descobrir, segundo a investigação, um suposto esquema financeiro ligado ao PCC. Mensagens indicam que empresários investigados recorreram ao chamado tribunal do crime da facção em vez da Justiça.
Marcelo de Morais Oliveira, preso na Operação Janus, é investigado em caso envolvendo disputa por um imóvel na Riviera de São Lourenço, segundo o Ministério Público de São Paulo.
Marcelo de Morais Oliveira foi preso na Operação Janus. Segundo o Ministério Público de São Paulo, ele é um dos investigados na disputa por um imóvel na Riviera de São Lourenço que deu origem à apuração sobre um suposto esquema financeiro ligado ao PCC.(Imagem:Reprodução/TV Globo).

Uma disputa por um imóvel de luxo na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista, foi o ponto de partida para uma investigação que revelou, segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), um suposto esquema financeiro clandestino ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Em vez de recorrer ao Judiciário para solucionar um conflito de R$ 2 milhões, os empresários investigados teriam buscado a mediação do chamado “tribunal do crime”, mecanismo usado pela facção para decidir disputas entre integrantes e pessoas ligadas ao grupo.

A descoberta deu origem à Operação Janus, deflagrada na terça-feira (21), que investiga uma organização apontada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) como responsável por oferecer serviços financeiros ao PCC. Ao todo, a Justiça expediu 18 mandados de prisão preventiva, 18 de busca e apreensão e determinou o bloqueio de até R$ 10 milhões em bens e contas dos investigados.

Casa na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista, que foi alvo de uma disputa de R$ 2 milhões. Segundo o Ministério Público de São Paulo, o conflito foi levado ao chamado tribunal do crime do PCC e deu origem às investigações que culminaram na Operação Janus.

O imóvel chamou a atenção dos investigadores

De acordo com o MP-SP, a investigação começou justamente após a análise dos celulares apreendidos na disputa envolvendo a casa de luxo. As mensagens revelaram que o empresário Cléber Azevedo dos Santos discutia o pagamento relacionado ao imóvel com Marcelo de Morais Oliveira, preso durante a operação. Em uma das conversas interceptadas, Cléber afirma que “quem vai conduzir vai ser o comando”, frase que, segundo os promotores, indica que a decisão seria entregue ao comando do PCC.

Em outro áudio, o empresário pede formalmente a intervenção da facção para resolver o impasse. Para o Ministério Público, a mensagem demonstra uma submissão voluntária às regras da organização criminosa, reforçando a hipótese de que o grupo era utilizado como instância paralela para solucionar conflitos patrimoniais de alto valor.

Segundo a investigação, o chamado “tribunal do crime” é um mecanismo utilizado por facções criminosas para julgar conflitos internos e impor decisões fora do sistema oficial de Justiça. No caso da Operação Janus, o MP sustenta que essa estrutura teria sido acionada para arbitrar uma negociação milionária envolvendo um bem particular, o que evidencia, na avaliação dos investigadores, uma atuação que extrapolava o tráfico de drogas.

Das mensagens surgiu uma investigação muito maior

A partir da análise dos aparelhos celulares, os investigadores afirmam ter identificado indícios de um esquema mais amplo de movimentação de recursos ilícitos. Segundo o MP-SP, as conversas apontam que o grupo oferecia serviços de lavagem de dinheiro e “blindagem” financeira para diferentes clientes, incluindo integrantes do PCC.

As mensagens também mencionam pedidos de dinheiro destinados, segundo o Ministério Público, ao pagamento de policiais. Em uma delas, Cléber escreve: “Preciso de R$ 50 mil pra poder mandar pra polícia”. Em outro áudio, ele solicita R$ 100 mil em espécie para um cliente que, segundo a gravação, precisava “pagar os polícia do Deic”. Os investigadores tratam essas conversas como indícios de um suposto esquema de corrupção de agentes públicos, hipótese que ainda será analisada pela Justiça.

Outro conjunto de mensagens descreve a movimentação de grandes quantias em dinheiro vivo. Em uma delas, um dos investigados relata que uma sacola continha R$ 498,5 mil, valor inferior ao esperado. Para os promotores, os diálogos reforçam a suspeita de que a organização administrava recursos em espécie e oferecia serviços para ocultar a origem de dinheiro proveniente de atividades criminosas.

Operação também apura lavagem de dinheiro

Além das conversas sobre o imóvel, a investigação cita mensagens em que os investigados afirmam atender clientes de diferentes setores da economia. Em um dos diálogos, Cléber diz que o grupo já prestava serviços para “usina, igreja, bingo, fábrica de cigarro”, oferecendo contas destinadas a ocultar a origem dos recursos. Segundo o MP-SP, essas declarações reforçam a suspeita de uma estrutura especializada em dar aparência de legalidade a valores de origem ilícita.

A representação do Gaeco também cita a contadora Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef. Conforme o Ministério Público, ela teria informado receber R$ 70 mil por mês para trabalhar exclusivamente para o grupo e orientado um dos investigados a não alterar sua declaração de Imposto de Renda, apesar de inconsistências identificadas. Os promotores sustentam que as mensagens indicam possível atuação na ocultação patrimonial, hipótese que faz parte da investigação.

Os investigados ainda não foram condenados, e todas as suspeitas apresentadas pelo Ministério Público serão analisadas ao longo da ação penal. A reportagem procurou as defesas dos envolvidos, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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