Fraude no INSS expõe acordo com 99,3% de contestações negando descontos

Igor Dias Delecrode e o ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira, citados em investigação sobre fraude no INSS
Igor Dias Delecrode e o ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira aparecem no contexto das investigações sobre descontos associativos no INSS.(Imagem: Editorial).

O primeiro acordo mencionado por empresários investigados na fraude no INSS ganhou uma dimensão financeira que vai além da conversa revelada agora. A Amar Brasil Clube de Benefícios, posteriormente denominada ABCB, acumulou R$ 324,6 milhões em descontos associativos, segundo dados da Dataprev reunidos pela CPMI do INSS.

A conexão aparece em uma gravação de 22 de maio de 2025, feita por câmeras instaladas na residência de Anderson Cordeiro de Vasconcelos. No vídeo, ele e Igor Dias Delecrode discutem como o grupo teria chegado ao ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira para obter o primeiro acordo da Amar Brasil com o instituto.

Delecrode atribui a Wilson Roberto Gomes, pai de Felipe Macedo Gomes, a frase: “Eu que consegui o negócio para vocês, eu que sentei lá com o Oliveira”. O relato é dos empresários e não comprova, por si só, interferência do ex-ministro na formalização do acordo.

Fraude no INSS levou Amar Brasil a R$ 324,6 milhões

A documentação da CPMI registra o acordo de cooperação técnica da entidade em agosto de 2022. Na série consolidada pela comissão, a ABCB, ex-Amar Brasil, aparece com R$ 324.626.710,12 em descontos associativos e ocupa a sexta posição no ranking de maior arrecadação entre as entidades relacionadas na tabela.

O contraste aparece quando os descontos são confrontados com as contestações feitas por beneficiários. Na base do Meu INSS apresentada no relatório, 338.516 registros envolvendo a Amar Brasil foram considerados: 336.169 apontavam não reconhecimento e apenas 2.347, reconhecimento.

Isso significa que 99,3% das contestações registradas nessa base indicavam que o beneficiário não reconhecia o desconto. O percentual não representa 99,3% de todos os descontos efetuados pela entidade.

Amar Brasil não foi caso isolado entre índices próximos de 99%

A comparação com outras entidades ajuda a dimensionar o resultado. Na mesma base, Conafer aparece com 99,3% de não reconhecimento, Ambec com 99,1% e AAPEN/ABSP com 99,4%. A Contag, por sua vez, registra 86,6%.

O negócio mencionado na gravação também antecedeu uma operação maior. Documento apresentado à CPMI registra que ABCB/Amar Brasil, Master Prev, ANDDAP e AASAP acumularam juntas cerca de R$ 714 milhões em descontos associativos.

Em outro momento do vídeo, Anderson afirma que não sabia “nem que ia dar um helicóptero pro ‘big boss’”. O material divulgado não esclarece quem seria essa pessoa nem permite estabelecer, apenas a partir dessa frase, quem teria recebido a aeronave.

As defesas de Anderson, Igor e Felipe afirmaram desconhecer a existência, autenticidade e integridade dos vídeos. A defesa de Wilson negou relação dele com as associações. A defesa de José Carlos Oliveira negou ingerência do ex-ministro na celebração dos acordos.

Há ainda uma consequência financeira documentada. A tabela da CPMI registra R$ 106,55 milhões devolvidos até 29 de setembro de 2025 relacionados à ABCB, ex-Amar Brasil. O valor corresponde a cerca de um terço dos R$ 324,6 milhões registrados na série de descontos, embora as duas cifras tenham escopos próprios e não devam ser tratadas como saldo direto uma da outra.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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