Desembargador votou contra União antes de contrato de R$ 427 milhões com Master

Newton Ramos votou contra recursos da União em ação ligada a interesses do Banco Master; meses depois, familiares tiveram contrato milionário com a instituição.
Desembargador Newton Ramos, do TRF-1, citado em processo ligado a interesses do Banco Master
Newton Ramos, desembargador do TRF-1, votou em julgamentos de ação que passou a envolver interesses do Banco Master.(Imagem: Reprodução).

desembargador Newton Pereira Ramos Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), votou contra recursos da União em dois julgamentos de uma ação da Usina Cansanção de Sinimbu. Segundo o Estadão, o Banco Master atuou no processo em conjunto com a usina. Porém, o desembargador Newton Ramos afirma que não havia indicação nos autos do interesse do banco quando ocorreu o primeiro julgamento.

Os votos foram proferidos em janeiro e junho de 2024. Newton Ramos acompanhou decisões unânimes da 11ª Turma do TRF-1 favoráveis à posição da usina. A controvérsia envolvia a perícia usada para apurar a indenização cobrada da União. O governo defendia uma análise mais ampla, com novos documentos. Por outro lado, a empresa pretendia manter os parâmetros considerados no processo original.

Família de desembargador teve contrato de até R$ 427 milhões

Cerca de seis meses depois do segundo voto, Camilla Rose Ewerton Ferro Ramos, mulher de Newton, e Gabriel Ribeiro Gonçalves Ramos, filho do desembargador, receberam procurações relacionadas à atuação jurídica para o Master.

O contrato previa 5% líquidos sobre os valores recebidos pelo banco em 12 processos envolvendo precatórios relacionados ao antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Os processos tinham potencial informado de cerca de R$ 8,5 bilhões para o Master. Além disso, os honorários poderiam chegar a R$ 427 milhões em caso de êxito. A existência posterior do contrato, por si só, não comprova relação entre a contratação dos familiares e os votos de Newton.

O ponto menos evidente da história está justamente na perícia. No Tema 826, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o “efetivo prejuízo econômico” precisa ser comprovado mediante perícia técnica em cada caso concreto para o reconhecimento da responsabilidade da União pela política de preços do setor sucroalcooleiro. Importante destacar que a tese transitou em julgado em 31 de março de 2023.

Um processo diferente mostra a consequência prática dessa exigência. Em janeiro de 2026, a Advocacia-Geral da União (AGU) informou ter afastado uma indenização de R$ 747,3 milhões, em valores atualizados, pleiteada por outra usina. Segundo a AGU, não ficou comprovado naquele caso prejuízo financeiro provocado pela política de preços. A ação não envolve a Cansanção nem o Banco Master.

Ações do setor tinham provisão de R$ 145,75 bilhões

A dimensão fiscal é maior quando considerado o conjunto dessas disputas. Em 2024, demonstrações contábeis do Ministério da Fazenda reconheceram R$ 145,75 bilhões em provisões para perdas judiciais ou administrativas decorrentes de ações do setor sucroalcooleiro contra a União. Entretanto, o valor não corresponde ao processo da Cansanção, aos R$ 8,5 bilhões dos 12 processos nem aos créditos específicos do Master.

A própria extensão da exigência de perícia voltou à pauta do STF nesta semana. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu que o plenário analise uma controvérsia sobre a necessidade de perícia individual quando os critérios de indenização já tiverem sido definidos por sentença transitada em julgado. A Segunda Turma do STF deve analisar entre 25 de setembro e 2 de outubro apenas se envia a questão ao plenário. Vale ressaltar que é outro processo e seu resultado não pode ser automaticamente aplicado ao caso em que Newton votou.

Desembargador diz que Master não aparecia nos autos

Nesta terça-feira (22), o advogado Alex Ferreira Borralho apresentou reclamação disciplinar ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pediu a abertura de investigação sobre a conduta de Newton Ramos. Contudo, o pedido de apuração não representa uma conclusão do CNJ sobre eventual irregularidade.

desembargador Newton Ramos sustenta que, quando participou do primeiro julgamento, não havia indicação do interesse do Banco Master nos autos. Sobre a forma como o processo foi analisado, afirmou:

“Foi julgado em bloco, em sessão virtual com aproximadamente 300 processos.”

O desembargador acrescentou que o ingresso do banco teria ocorrido somente depois e que, desde então, seu impedimento está anotado.

A cronologia permanece como ponto a ser esclarecido documentalmente: a reportagem relata atuação do Master no processo. Contudo, Newton Ramos afirma que o interesse da instituição não estava indicado nos autos quando ocorreu o primeiro julgamento. Para o caso do desembargador e Banco Master, ficam agora duas frentes distintas. O CNJ recebeu o pedido de apuração sobre a conduta do magistrado. Por outro lado, o STF volta a discutir, em outro processo, até onde vai a exigência de perícia nas indenizações bilionárias do setor.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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