Lula aponta onde começa a corrida da IA e coloca os minerais críticos em evidência

Lula relacionou inteligência artificial, ciência e minerais críticos ao defender que o Brasil agregue valor aos próprios recursos naturais para reduzir a dependência tecnológica e disputar espaço na economia de alta tecnologia.
Montagem mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado de elementos que representam inteligência artificial e tecnologia, tema de discurso sobre minerais críticos e inovação no Brasil.
Lula defendeu investimentos em ciência, inteligência artificial e minerais críticos como parte da estratégia para ampliar a capacidade tecnológica e industrial do Brasil.(Imagem:Editorial).

A disputa global pela inteligência artificial, na avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não será decidida apenas por quem desenvolver os melhores algoritmos, mas também por quem dominar a cadeia de produção das tecnologias que sustentam essa transformação. Em discurso nesta terça-feira (28), na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói (RJ), Lula conectou ciência, inteligência artificial e minerais críticos como parte de uma mesma estratégia para aumentar a competitividade do Brasil e reduzir a dependência tecnológica do exterior.

A disputa pela IA começa antes dos computadores

Ao defender que o Brasil invista em inteligência artificial, Lula também chamou atenção para um tema que costuma ficar fora do debate público: os minerais críticos e as terras raras, considerados estratégicos para a produção de chips, baterias, equipamentos eletrônicos e tecnologias de defesa.

Na prática, a expansão da inteligência artificial depende de uma cadeia industrial que começa muito antes dos softwares. Servidores de alto desempenho, data centers e processadores utilizados para treinar modelos de IA exigem matérias-primas que se tornaram alvo de uma disputa global entre grandes economias.

Foi nesse contexto que o presidente afirmou que o Brasil precisa pensar em como aproveitar seus próprios recursos naturais para competir em setores de maior valor agregado, em vez de permanecer apenas como exportador de commodities.

“Como é que nós vamos explorar esses minerais? Como é que nós vamos explorar as terras raras? Como é que nós vamos aproveitar isso em benefício do povo brasileiro?”, questionou Lula durante o evento.

Ter reservas não basta para disputar a economia da IA

A fala do presidente evidencia um desafio que vai além da mineração. Possuir minerais estratégicos não significa, automaticamente, ocupar uma posição de liderança na economia da inteligência artificial.

Hoje, as etapas de maior valor agregado da cadeia estão concentradas no processamento industrial, no refino e na fabricação de componentes tecnológicos. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China lidera o refino de 19 dos 20 minerais estratégicos analisados pelo organismo, com participação média próxima de 70%, o que amplia sua influência sobre cadeias industriais ligadas a semicondutores, baterias e infraestrutura digital.

Na prática, o desafio brasileiro não é apenas extrair esses recursos, mas desenvolver capacidade industrial e tecnológica para processá-los no país e ampliar sua participação nas etapas de maior valor econômico.

Brasil quer transformar recursos naturais em vantagem tecnológica

Embora o país tenha reservas importantes de minerais estratégicos, o objetivo defendido pelo governo é ampliar o processamento desses recursos e estimular a industrialização, reduzindo a dependência da exportação de matérias-primas.

Nesse cenário, está em tramitação no Senado o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A proposta, aprovada pela Câmara dos Deputados, prevê incentivos para ampliar investimentos, estimular o processamento desses minerais em território nacional e fortalecer a cadeia produtiva brasileira.

“Quero derrotá-los estudando mais”, afirma Lula

Ao comentar a disputa tecnológica entre as grandes potências, Lula afirmou que o Brasil não pretende competir no campo militar, mas reduzir essa distância por meio da produção de conhecimento.

“Você acha que eu quero brigar com a China? Eu não sou louco. Você acha que eu quero brigar com os Estados Unidos? Eu não sou louco (…) Ao invés de ficar brigando com eles, eu quero derrotá-los estudando mais, investindo mais e pesquisando mais.”

Segundo o presidente, o investimento contínuo em ciência será determinante para que o Brasil consiga desenvolver tecnologias próprias e reduzir a dependência de soluções produzidas no exterior.

Pesquisa passa a ser tratada como política de competitividade

Durante o encontro da SBPC, Lula afirmou que o país só conseguirá participar da corrida tecnológica se ampliar os investimentos em pesquisa e incentivar jovens a seguir carreiras ligadas à ciência e à inovação.

“Sem investimento em pesquisa, nós não vamos chegar na inteligência artificial.”

Para o presidente, a competitividade brasileira dependerá da capacidade de transformar conhecimento científico em inovação, indústria e tecnologia, e não apenas da disponibilidade de recursos naturais.

Inteligência artificial também entra no debate eleitoral

Lula afirmou ainda que a inteligência artificial deverá ganhar espaço na campanha eleitoral deste ano e alertou para os impactos da tecnologia sobre o processo democrático.

“Vocês vão ver mais inteligência artificial na televisão do que candidato.”

O presidente voltou a defender as restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao uso da tecnologia nas campanhas e reiterou que não pretende utilizar ferramentas de IA em sua própria campanha.

O tema ganhou repercussão após a convenção nacional do Partido Liberal (PL), realizada no último sábado (25), exibir um vídeo produzido com inteligência artificial simulando um pronunciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília.

O desafio agora é transformar riqueza mineral em tecnologia

Embora não tenha anunciado novas medidas, Lula reuniu no mesmo discurso temas que normalmente aparecem separados: ciência, inteligência artificial, minerais críticos e política industrial.

Na prática, o desafio para o Brasil não será apenas ampliar a produção mineral, mas converter esses recursos em pesquisa, inovação e produtos de maior valor agregado. O avanço dessa estratégia dependerá tanto da aprovação de políticas em tramitação quanto da capacidade de transformar uma vantagem geológica em uma vantagem tecnológica capaz de inserir o país de forma mais competitiva na economia da inteligência artificial.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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